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Conviver | Outubro 2017

05/10

Reggio Emilia, ao norte da Itália, é uma referência em Educação Infantil e formação docente. A pedagogia desenvolvida ali após a 2ª Guerra Mundial encanta educadores ao redor do mundo e é uma das diretrizes da nossa Educação Infantil. A abordagem educacional de Reggio Emília inspira as atividades do Jardim há quase 15 anos, notadamente com o Projeto Clube de Pesquisa, que incentiva o protagonismo e o potencial investigador do aluno. O foco dessa pedagogia está no desenvolvimento de um olhar que faz desabrochar nas crianças aquilo que é mais profundo no ser – a humanidade, em que as artes têm uma função fundamental na apuração de um senso estético. A entrevista selecionada aborda diversos aspectos que incorporamos em nossa escola e que são praticados em Reggio, como a formação continuada de professores e a documentação pedagógica. Boa leitura!

Luiza Sassi, Direção Pedagógica.

Foto: Registro fotográfico de uma atividade feita pelas crianças em Reggio Emilia e captado pela nossa Gerente Pedagógica, Graça Regent, quando participou de um Congresso na cidade.

Um sistema educativo em todos os momentos

ENTREVISTA // Paola Strozzi

A proposta de educação infantil de Reggio Emilia, cidade ao norte da Itália, existe há mais de 50 anos. Concebido pelo educador italiano Loris Malaguzzi (1920-1994) e reconhecido pela exploração de todas as linguagens utilizadas pelas crianças, o trabalho tem despertado cada vez mais o interesse dos professores brasileiros. “Loris já nos convidava a ultrapassar os limites dos livros e a encontrar lugares apaixonantes para ensinar”, conta Paola Strozzi, coordenadora de uma das escolas de Reggio Emilia. “Nessa relação com a cidade, sempre se buscou sair das escolas e encontrar a comunidade”, destaca. 

As escolas de educação infantil em Reggio Emilia são administradas diretamente pela prefeitura. Há também instituições privadas, escolas cooperativas e aquelas administradas pelo Estado. 

A prefeitura investe 16% do próprio orçamento na rede integrada de serviços destinados às crianças, e os pais com filhos matriculados nessas escolas também contribuem de acordo com a renda familiar. Há 41,8% de crianças de até 3 anos que frequentam a escola. Segundo Paola, esse número é alto para a realidade italiana. 

Em agosto, a educadora apresentou o trabalho desenvolvido na cidade italiana durante o V Fórum Internacional de Educação Infantil, promovido pelo Núcleo de Estudos em Políticas Públicas (NEPP) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pela Fundação Antônio-Antonieta Cintra Gordinho. Leia, a seguir, a entrevista que ela concedeu à Pátio Educação Infantil após o evento.

Como o cuidado permeia o trabalho das escolas de Reggio Emilia?

Todo o nosso sistema é educativo. Todos os momentos do dia são importantes, não apenas durante as atividades. A cozinha, por exemplo, é o lugar dos sabores e dos odores. Ela pode tornar-se um ateliê. O almoço e o sono também são relevantes. As crianças aprendem não só quando pensamos em ensinar, mas quando vivemos. A maneira como nos colocamos à mesa, como dormimos um ao lado do outro são oportunidades de aprendizagem.

Quem é responsável por essas atividades?

Quem cuida desses momentos são as próprias professoras. Consideramos que trocar uma fralda e escrever no quadro tem a mesma importância. São necessárias dedicação e delicadeza; portanto, essas ações não podem ser realizadas por outra pessoa que não conhece tão bem as crianças. Isso não significa que não possa haver alguém para auxiliar o trabalho, mas é fundamental dizer que esse funcionário pode ocupar outro posto, dependendo de quem necessite de sua ajuda. A aprendizagem deve estar ligada ao bem-estar e vice-versa.

Qual é o papel do professor na aprendizagem das crianças?

Em coerência com a imagem de criança que temos, precisamos de um professor pesquisador. Aliás, esse termo é bastante comum em relação aos profissionais de Reggio Emilia. Quando o professor não tem obrigação com o ensino mais formalizado, ele quer aprender junto com a criança e, por isso, torna-se um pesquisador. Se ele conhece bem a criança, pode discutir junto com ela sobre sua maneira de aprender. Na pedagogia, esse adulto busca a relação, a comunicação, a escuta, sempre por meio de projetos.

Como essa dinâmica se articula com os referenciais da educação?

Não temos programas de educação, e sim referências legislativas da escola italiana, que vai desde a escola da infância até a escola elementar (do 1º ao 8º ano). Em várias legislações internacionais, é comum encontrarmos as palavras “indicação” e “orientação”. Muitas vezes, a didática concreta empobrece as boas indicações, já que é mais fácil confiar em um programa que determina o que fazer na segunda-feira, na terça-feira, e assim por diante. Nossos professores devem conseguir fazer pesquisas e documentá-las por meio de observações (notas, fotografias, vídeos) e interpretações.

E qual é a ideia que os profissionais de Reggio Emilia têm a respeito da criança?

Malaguzzi dizia que devemos ver a criança como um ser ativo, capaz de construir relações, constantemente empenhado na busca do sentido para suas ações, do significado das coisas que o circundam, dotado de enormes potencialidades. Portanto, as crianças são pessoas que buscam significado nas coisas, utilizando-se para tanto das cem linguagens. Não devemos fazer uma atividade atrás da outra só para passar o tempo. Tentamos olhar a criança não apenas como um sujeito que necessita de cuidados, mas especialmente como um produtor de relações. Ela está interessada no outro. Não somos nós, de Reggio Emilia, que dizemos isso, e sim pesquisas que afirmam que temos um cérebro preparado para construir relações.

Como é feita a formação de professores em Reggio Emilia?

A formação dos nossos professores é feita no dia a dia, estimulando-os a produzir algumas reflexões sobre aquilo que fazem e a trocar ideias entre eles. Eventualmente, estimula-se até mesmo que eles se comuniquem com outras escolas. Não se trata apenas de produzir teorias; é importante que elas sejam documentadas. Dizer o que não dá certo é igualmente relevante. A documentação é um instrumento que mostra como ir adiante. Os cursos de formação de professores deveriam ser imersos na prática de ensino, assim como são os cursos para médicos. Ter um diploma é muito bom, mas sabemos que, ao sair da universidade, o pedagogo não sabe exercer sua profissão. A prática é essencial para a reflexão, e não se pode abandoná-la.

Como funciona a formação continuada?

Os professores têm um curso de aperfeiçoamento em torno de duas horas e meia. Trata-se de um tempo para refletirem juntos e discutirem diversos assuntos. Há também tempo para que as duas colegas da mesma turma conversem sobre os materiais que produziram no decorrer de uma semana. Há encontros, dos quais participa todo o grupo, que abordam a documentação ou o funcionamento institucional. Existem ainda os momentos de participação da família. Partimos do princípio de que os professores já têm formação, mas a autoformação tem de acontecer para aumentar as fontes de referência, construir hipóteses e formular ideias em torno de argumentos. Não podemos fazer algumas afirmações gerais e depois não dar condições para que sejam aplicadas. Todos dizem que a formação profissional é importante, não é verdade? Mas quanto tempo se dá aos professores para que a realizem? Quais os reconhecimentos? Quais os instrumentos?

Que tipo de material didático é fornecido aos professores?

Não seguimos guias didáticos nem fichas pré-confeccionadas. Embora esses recursos garantam segurança ao professor, acreditamos que ele precise buscar a aventura. Em vez de entregar à criança a ficha da borboleta, o adulto deve ir para o ambiente externo e procurar na natureza as borboletas de verdade. Temos, sim, algumas fichas, mas nós as fazemos no fim ou no meio de um percurso pedagógico. Às vezes, nos inspiramos nas que já existem, porque não gostamos da censura: não existe o “nunca” e o “sempre”. Tentamos entender como as crianças pensam — que é o mais bonito. Fazemos isso com respeito, com delicadeza, anotamos o que acontece, discutimos com os colegas e com os pais. Damos pistas e evidências às famílias, que ficam contentes em saber que existe um como e um porquê em tudo.

Como é o envolvimento dos pais com a educação dos filhos?

Os que participam tornam-se muito exigentes em relação à política. Toda vez que temos eleições nacionais ou locais, os pais convidam os candidatos de todos os partidos e perguntam o que eles pensam a respeito da educação, que investimentos pretendem fazer. É claro que promessas em tempo de eleições são fáceis, mas é importante sentir essa união, tanto entre os operadores quanto entre as famílias.

E a convivência dos pais na escola?

Nossos momentos preferidos são aqueles em que as famílias entram na escola, quando reunimos todos e o professor fala de todas as crianças junto. Esses encontros de trabalho são muito importantes porque nos ajudam a cuidar da escola. Não existe hierarquia nessas relações. Trata-se de momentos de encontro entre os pais e os professores, pais e cozinheira, cozinheira e atelierista… Enfim, reuniões de trabalho, de grandes grupos, de pequenos grupos, de duplas. Precisamos dessa convivência para pensarmos juntos.

Qual a importância da vida real no processo de aprendizagem?

O contexto desempenha papel determinante. O ambiente permite a aprendizagem. O contexto a que me refiro é um contexto educativo que permite atenção ao tempo de desenvolvimento pessoal. Existe a possibilidade para a criança e o professor de buscar, pesquisar e experimentar. Estamos todos em um movimento de procura e experimentação apaixonada, com um contexto que permite a construção de experiências que, juntas, tenham razão e emoção, estratégias, materiais, imitações, trocas, ajustamentos, reflexão e autorreflexão, avaliação e autoavaliação. Não basta brincar juntos; é importante repensar os significados a respeito daquilo que estamos experimentando. Embora isso pareça uma banalidade, na prática escolar não é. As crianças gostam de se divertir, amam explorar e aprender se divertindo.

Como a fotografia apoia o trabalho de documentação?

É muito comum que nas escolas haja espaços nos quais são fixadas fotografias das crianças. Em geral, são fotos tiradas e expostas pelos professores. Contudo, fotografar não é só contar aquilo que existe, mas também apresentar uma interpretação. Por exemplo, certa vez, o menino Andrea fez fotos de Thomas. Thomas sabia muito bem o que queria. Chamou Andrea e disse: “Vamos fazer minhas fotos no pneu, que é o meu lugar preferido”. Depois escolheu uma das opções de retrato e escreveu: “Eu gosto muito de balançar porque a minha cabeça roda da direita para a esquerda. Quando o balanço vai muito forte, sai para fora o amor. Estou apaixonado por uma menina, porque ela é muito linda e no balanço eu sinto o seu perfume”. Reggio Emilia é conhecida como a experiência das cem linguagens das crianças. Ou seja, não é só falar, escrever, contar; também há aspectos sutis, como o perfume. E percebemos como as crianças são sensíveis a esses aspectos da identidade. Como podemos notar essa capacidade delas nas escolas? Temos ambientes perfumados, com aromas que mudam nos dias e nas estações. Quando oferecemos comida para elas, valorizamos as cores, os sabores, os odores.

Que valores são fundamentais nas escolas de Reggio Emilia?

A organização é fundamental, pois ela torna possível afirmar valores. É importante também o ambiente, porque materiais permitem ou não fazer coisas. Outro valor fundamental é o da participação. Quem participa não são apenas as crianças, que realmente estão em primeiro plano, mas também os professores, os pais e as pessoas da cidade. As escolas são comunidades educativas nas quais não tanto se educa, mas muito mais nos educamos, isto é, os sujeitos envolvidos (criança, professores, operadores e pais), contemporaneamente, educadores e educandos.

Percebe-se hoje uma escolarização cada vez mais precoce. Como a senhora analisa esse fato?

Essa é uma questão mundial. Há lugares em que as crianças são avaliadas para serem aceitas no sistema educacional. Você as inscreve para frequentar a escola e elas são submetidas a um exame. Se não passam, não são aceitas. Nesse caso, as famílias preparam seus filhos para que respondam corretamente às questões da avaliação. Com isso, acreditamos que as crianças tornam-se adolescentes mais rapidamente, deixando a infância de lado.

O trabalho desenvolvido em Reggio Emilia tem influenciado as demais regiões da Itália e da Europa?

A nova lei italiana para escola primária, indicação para o currículo na escola infantil e na escola primária, é de 2012. Portanto, ainda é muito recente. Carla Rinaldi, que foi a primeira pedagoga colaboradora de Reggio Emilia, está entre as pessoas que pensaram a lei. Porém, sabemos que esse é um trabalho que nunca termina. Há delegações de toda a Itália que vão para Reggio Emilia. Promovemos formações nas cidades italianas e também colaboramos com projetos europeus. Trata-se de um trabalho em andamento. Não é fácil. Não somos modelos, porque, se dizemos isso, as pessoas pegam esse pacote somente para aplicá-lo. Dizemos que vamos conversar sobre nossas experiências. Há espaço também para que as pessoas contem sobre as próprias experiências. E assim seguimos.

  • Cristiane Marangon & Silvana Azevedo

Fonte: http://loja.grupoa.com.br/revista-patio/artigo/10880/um-sistema-educativo-em-todos-os-momentos.aspx

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